A exemplo do Rei Midas, o capitalismo tem o dom de transformar tudo o que toca e subemete às suas relações em mercadoria, inclusive a água, a energia e bens ofertados generosamente pela própria Natureza, na medida em que são convertidos em propriedade privada.
Conforme argumentou Karl Marx, a própria força de trabalho humana é transformada em mercadoria e, como toda mercadoria, tem seu valor regulado pela lei da oferta e da procura. Por isto, é comum e justificável referir-se ao mercado de trabalho como o local onde os agentes econômicos compram e vendem esta mercadoria especial, que tem o condão de criar valores, tanto o valor de uso (produto do trabalho concreto) quanto valor de troca (fruto do trabalho abstrato), além de um valor excedente sobre o salário, que vem a ser a mais-valia apropriada pelo capital.
Emprego e desemprego
Os salários flutuam, podendo ficar acima ou abaixo do valor necessário para a reprodução da força de trabalho, de acordo com as fases ou humores do ciclo econômico, que alterna euforia com depressão, prosperidade e crise.
Nas fases de prosperidade, com a produção e a demanda em alta, a demanda por força de trabalho cresce, de forma que o desemprego cai e os salários tendem a subir. O contrário ocorre na fase de crise e queda da produção, com fechamento de empresas e demissões em massa forçando os salários para baixo e fazendo com os trabalhadores e trabalhadoras aceitem trabalhar por salários irrisórios e condições de trabalho degradantes, com jornadas exaustivas e insalubres.
É o primeiro desses dois efeitos que se verifica neste momento no mercado de trabalho brasileiro, o que está levando empresas do ramo comercial, que demandam uma quantidade extra de funcionários para fazer frente à demanda aquecida pelas festas de final de ano (Natal e Ano Novo), a abrir mão da escala 6x1, demonstrando que o patronato pode conviver muito bem com o fim desta escala desumana.
Desemprego e escala 6x1
A taxa de desocupação no Brasil caiu para 5,4% no trimestre encerrado em outubro, o menor nível da série histórica iniciada em 2012. O número de desocupados recuou para 5,9 milhões, também o menor contingente da série. A ocupação ficou em 102,6 milhões, e a subutilização chegou a 13,9%, menor nível desde 2014.
A queda na desocupação veio com a força do emprego formal e o número de empregados do setor privado com carteira assinada bateu recorde, com 39,2 milhões de trabalhadores, enquanto os sem carteira caíram para 13,6 milhões. Somado a isso, a informalidade caiu para 37,8%. Em mais um recorde positivo, o rendimento real chegou a R$ 3.528, levando a massa salarial a R$ 357,3 bilhões. Entre os setores, construção foi o que mais gerou vagas, enquanto “outros serviços” perdeu 156 mil ocupados. (Meio)
Com a desocupação nas mínimas e a renda média nas máximas, as empresas do setor de varejo e serviços enfrentam um fim de ano com vagas sobrando, mas candidatos faltando. A Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem) estima que 267 mil postos temporários seriam abertos entre outubro e dezembro.
No Magalu, o déficit de novos funcionários levou a empresa a oferecer prêmios e viagens para preencher 3 mil posições; e na Blue Tree, a escala 6x1 virou 5x2 para atrair 102 temporários. Além disso, algumas empresas tiveram de anunciar vagas com carros de som anunciando oportunidades. Mesmo assim, empresários relatam rotatividade altíssima e jovens pouco atraídos por salários que raramente passam de R$ 2 mil, ou seja, situam-se abaixo do mínimo necessário para a sobrevivência do trabalhador ou trabalhadora.
Segundo cálculos do Dieese, o valor do salário necessário para satisfazer as necessidades de consumo da família do trabalhador com quatro pessoas (dois adultos e duas crianças), conforme prevê a Constituição de 1988, seria equivalente a R$ 7.116,83 em outubro, valor muito distante do piso nacional real de R$ 1.518,00.