Por Juliana Peixoto* 

A cidade de Mianyang, na província chinesa de Sichuan, está ganhando destaque internacional ao propor uma iniciativa que une economia e bem-estar social: a redução da jornada de trabalho para quatro dias e meio, com a criação de um fim de semana de dois dias e meio, ou melhor, um ‘sextou’ antecipado.

A proposta busca estimular o consumo interno e oferecer mais qualidade de vida aos trabalhadores, em um momento em que a China tenta equilibrar crescimento econômico e demandas sociais.

Mianyang no centro da inovação trabalhista

Com cerca de 4,9 milhões de habitantes e considerada um polo industrial e tecnológico, Mianyang surge como laboratório estratégico para esse experimento trabalhista. A ideia é encerrar as atividades na tarde de sexta-feira, criando um “sextou” antecipado que prolonga o descanso semanal.

Autoridades locais afirmam que o tempo extra fora do ambiente de trabalho deve fortalecer setores como turismo, comércio e serviços, além de proporcionar maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A iniciativa se alinha ao plano nacional chinês de reorientar a economia, reduzindo a dependência de exportações e investimentos estatais e estimulando o consumo privado.

A lógica econômica do tempo livre

A proposta de semana reduzida parte da ideia de que menos horas no escritório podem significar mais gastos no lazer e no consumo. Em 2023, a média semanal de horas trabalhadas entre os urbanos na China foi de 48,3, número elevado em comparação a padrões internacionais. O grupo mais ativo, de 30 a 34 anos, também é aquele com maior potencial de consumo — e justamente o público-alvo da medida.

Em vez de apostar apenas em mais produção, a cidade propõe liberar tempo para que os cidadãos utilizem sua renda em experiências e serviços. Essa mudança é vista como estratégica para reaquecer a economia em tempos de desaquecimento global.

O fim do modelo “996” e o combate ao neijuan

Durante décadas, a cultura de trabalho extremo marcou a vida de milhões de chineses. O chamado modelo “996” — expediente das 9h às 21h, seis dias por semana — tornou-se símbolo de dedicação e produtividade. Em 2021, o Supremo Tribunal Popular da China declarou o formato ilegal, mas a prática ainda resiste, impulsionada pela insegurança no mercado e pelo desejo de ascensão profissional.

Esse cenário está diretamente ligado ao fenômeno do neijuan, termo que descreve a competição interna exaustiva e improdutiva que afeta saúde mental e equilíbrio social. O governo chinês vem tentando frear esse processo, e a proposta de Mianyang aparece como parte dessa transformação cultural.

Empresas que já testam novos limites

Algumas companhias chinesas começaram a adotar mudanças por conta própria. A Midea, uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos do país, incentiva seus funcionários a encerrar a jornada até as 18h. Já a DJI, referência global em drones, limitou o expediente a um máximo até as 21h.

Apesar dos avanços, muitas pessoas ainda continuam trabalhando remotamente após o fim oficial do expediente, revelando que a mudança cultural pode ser tão desafiadora quanto a implementação legal de novas regras.

Desafios e obstáculos à adoção

A experiência de outras cidades chinesas mostra que a adoção de um fim de semana estendido não é simples. Tentativas anteriores fracassaram diante da resistência empresarial e da falta de regulamentação sólida. O caso de Mianyang, porém, ocorre em um momento de maior urgência econômica, o que pode favorecer maior adesão.

Entre os principais desafios estão:

A adaptação das empresas, que temem perda de produtividade;

A necessidade de regulamentação clara para evitar distorções;

O risco de trabalhadores acumularem tarefas em menos tempo;

A dificuldade de quebrar padrões culturais de longas jornadas.

Ainda assim, especialistas acreditam que a combinação de estímulo ao consumo e busca por bem-estar pode tornar a proposta mais viável agora do que em anos anteriores.

Impacto no consumo e no turismo local

Se bem-sucedido, o novo modelo pode fortalecer setores estratégicos. Mais tempo livre tende a significar maior procura por atividades culturais, gastronômicas e viagens curtas, gerando receita para a economia regional. O setor de turismo interno, em particular, pode ser um dos grandes beneficiados, especialmente em cidades como Mianyang, que já buscam diversificar sua base econômica.

Uma possível referência global?

O debate sobre jornadas mais curtas já se espalha por diversos países. Experimentos de semana de quatro dias vêm sendo testados em locais como Reino Unido, Japão e Islândia, sempre com resultados positivos no bem-estar dos trabalhadores e, em alguns casos, até com aumento de produtividade. A proposta chinesa, ao adotar o “meio-termo” de quatro dias e meio, pode se tornar uma referência mais realista para nações que buscam equilíbrio sem romper de forma brusca com os modelos tradicionais.

Revolução social ou apenas estratégia econômica?

O fim de semana de dois dias e meio é visto tanto como política pública voltada à economia quanto como reforma social de longo alcance. Para muitos especialistas, trata-se de uma tentativa de redefinir a relação da China com o trabalho, reduzindo desgastes e tornando o ambiente corporativo mais saudável.

Por outro lado, críticos apontam que, sem fiscalização efetiva, o risco é que a medida seja apenas simbólica, sem alterar de fato a carga de trabalho real dos empregados.

O futuro do trabalho em Mianyang

A proposta de Mianyang chega em um momento de inflexão histórica. A desaceleração econômica pressiona o governo a buscar soluções inovadoras, e o bem-estar social começa a ganhar espaço em um país marcado pelo crescimento acelerado a qualquer custo.

 Se for implementada e obtiver sucesso, a experiência pode inspirar outras cidades chinesas de médio porte e, eventualmente, criar um novo paradigma global para jornadas sustentáveis.

O “sextou antecipado” pode não ser apenas uma novidade local, mas um sinal de como o trabalho do futuro será moldado: menos horas, mais tempo livre e maior valorização da vida fora do ambiente corporativo.

*Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo