O governo Lula vem recuperando credibilidade e ampliando sua popularidade ao longo das última semanas graças à posição firme do presidente em defesa dos interesses da classe trabalhadora, como o fim da desumana escala 6x1, e da denúncia da oposição dos ricaços a uma maior contribuição para compensar a isenção do Imposto de Renda para salários até o valor de R$ 5 mil.

Conforme comentou em seu blog a jornalista Bela Megale "não são apenas os levantamentos do Palácio do Planalto que têm mostrado melhora na popularidade de Lula após o governo abraçar o discurso de ‘ricos contra pobres’ e reagir ao tarifaço de Trump. As pesquisas eleitorais estaduais que têm chegado ao PL, partido de Jair Bolsonaro, também mostram o presidente crescendo cerca de dois pontos percentuais no último mês".

Classes dominantes

O que a mídia hegemônica e a direita em geral designam de "discurso de ricos contra pobres" se traduz na verdade por uma defesa firme de pautas populares que não avançam por conta da forte oposição dos grandes capitalistas, banqueiros, comerciantes, latifundiários do agronegócio e os especuladores da Faria Lima.

Configuram a chamada classe dominante e de fato esses senhores e famílias de ricaços dominam não só o poder econômico como também o Congresso Nacional, cuja composição é o retrato invertido da sociedade, pois ali o empresariado e os grandes fazendeiros (latifundiários contemporâneos), embora minoritários na sociedade, têm a maioria da representação ao passo que a classe trabalhadora, à qual pertence a esmagoradora maioria dos brasileiros e brasileiras, são francamente minotários no Parlamento,

Compreende-se, assim, a razão pela qual 70% dos deputados federais manifestaram posição contrária ao fim da desumana escala 6x1 contra o anseio e pensamento de dezenas de milhões de trabalhadores e trabalhadoras e é o inverso da posição expressa pela maioria dos brasileiros: pelo menos 69% aprovam o fim da escala desumana, segundo a agência de dados Nexus.

Foi este alinhamento com os interesses dessas classes dominantes que orientou a recente votação na Câmara dos Deputados contra o decreto governamental acerca do Imposto sobre Operações Financeiras, que evidentemente não afetaria o bolso do povão, mas subtrairia alguns tostões dos investidores do mercado financeiro e turistas em viagem no exterior.

A decisão dos parlamentares foi considerada inconstitucional por Lula e está sendo contestada pela Advocacia Geral do Governo (AGU) e o PSOL no Supremo Tribunal Federal (STF).

Fim da escala 6x1

Da mesma forma e pela mesma razão, o projeto que abole a desumana escala 6x1 e estabelece a redução da jornada de trabalho sem redução de salários para 36 horas semanais, protocolada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), está parado na Câmara Federal por causa da forte resistência do patronato, que não quer saber sequer de debater o tema.

Lula também manifestou seu apoio ao fim desta escala desumana, à qual estão sujeitos 65,8%, ou quase dois terços, dos trabalhadores e trabalhadoras com contratos formais de acordo com dados de 2022, data da última RAIS. Ou seja, em números absolutos, nada menos do que 32 milhões de pessoas com carteira assinada.

A sobrecarga de trabalho desses brasileiros e brasileiras, associada ao baixo valor dos salários (82% dos que trabalham em comércio e serviços ganham menos de dois salários mínimos), é causa de doenças variadas e ajuda a explicar o fato de que 30% dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras sofrem com a síndrome de Burnout e 70% revelaram sentir estresse no ambiente de trabalho. 

Aa estatísticas revelam que o Brasil tem hoje uma classe trabalhadora esgotada e doente.

Absenteísmo e produtividade 

Além de elevar os custos e sobrecarregar o Sistema Único de Saúde (SUS) a doença é uma má conselheira da economia, pois eleva o absenteísmo e reduz a produtividade do trabalho e a competitividade nacional.  

No entanto, o patronato - que não tem sensibilidade social e nada enxerga além do próprio e estreito nariz - é desde sempre hostil à redução do tempo de trabalho sem redução de salários, pois não quer de forma alguma abrir mão da margem de lucro.

Não por acaso, o trabalhador é pobre ao passo que o grande capitalista é invariavelmente um ricaço, pois como notou Karl Marx capital é poder social concentrado, podere econômico e por extensão poder político. Isto de certa forma confere sentido à noção de que Lula apela ao discurso de ricos contra pobres ou vice-versa.

Na verdade, trata-se da velha e tradicional luta de classes, mas ao contrário do que falsa e lastimosamente a oposição direitosa alardeia não é Lula nem os partidos de esquerda que estão acirrando esta luta. É o capitalismo, ou seja, o próprio capital, cada dia mais centralizado, que exacerba a concentração de renda, a polarização social e as lutas decorrentes de suas explosivas contradições.

Por sinal, a radicalização da luta de classes não é visível apenas no Brasil, é um traço fundamental da conjuntura mundial, em que a progressiva ascensão da extrema direita revela a crescente fascistização das classes domiantes.

Consciência de classe 

Ao tomar partido nesta luta a favor da classe trabalhadora automaticamente o presidente se coloca objetivamente na contramão dos interesses dos grandes capitalistas nacionais e estrangeiros. 

Ao expor de forma firme e objetiva sua posição e suas críticas à classe dominante Lula desperta a consciência da classe trabalhadora. que constitui uma ampla maioria na sociedade brasileira.   

A recuperação da popularidade é um sinal de que, apesar dos pesares, este é o caminho justo para conscientizar e mobilizar o povo brasileiro, pavimentando o caminho para desmascarar e derrotar a extrema direita e consagrar a reeleição em 2026, bem como  a melhoria da composição do Congresso Nacional.