Por Gabriela Ferrarez

Lauren Cardoso trabalha na escala 6×1 desde os 13 anos. Aos 18, a rotina para se sustentar não mudou: começa às 8h, quando pega o ônibus, e termina depois das 19h, quando chega em casa. No seu único dia de folga na semana, a vendedora de malas no camelódromo, no Centro de Florianópolis, precisa escolher entre descansar, cuidar da casa, estudar ou passear. Fazer tudo não dá.

“Eu acho que falta tempo porque, na maioria da semana, a gente passa trabalhando, cuidando das tarefas de casa ou estudando. É bem corrido durante o dia a dia. Se eu tivesse [um dia a mais de folga], com certeza eu iria para a praia, descansaria um pouco ou só dormiria, já que a semana é bem puxada”, imagina.

A sua colega, Luana Oliveira, de 18 anos, vive um cenário semelhante. Ela desconta a estafa da rotina corrida no domingo, seu dia de folga. A vendedora gaúcha mora em Florianópolis há sete anos, um lugar apresentado a ela como opção de trabalho e de lazer ideal. No entanto, não é raro que seu único dia livre seja dedicado a faxinar a sua casa, onde pouco vive.

“Fico mais tempo aqui do que em casa. O tempo que passo em casa eu durmo. Pago aluguel para o meu cachorro”, ironiza.

Lauren e Luana não são casos isolados. Elas representam um retrato do trabalhador CLT do comércio varejista no Brasil. Dos mais de 6 milhões que atuam no setor, 93,46% trabalham mais de 40 horas por semana, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). É a área que mais adota a escala 6×1: seis dias de trabalho para um de descanso.

O sistema atual de escala, que ganhou sinônimo de exaustão nas redes sociais, virou debate prioritário em Brasília, com forças políticas contrárias e a favor.

Fim da escala 6×1: o que está em jogo
As jovens de Florianópolis estão entre as trabalhadoras a serem afetadas pela possível redução da escala 6×1, mudança na lei tratada como prioridade pela Câmara dos Deputados e pelo Governo Federal para 2026.

Atualmente, a Constituição prevê até 44 horas semanais, mas as propostas em discussão sugerem reduções na jornada de trabalho para 40 ou 36 horas semanais.

A redução ganhou força nos últimos anos, desde que, em setembro de 2023, o movimento VAT (Vida Além do Trabalho) tomou proporções gigantescas nas redes sociais ao cobrar mais descansos para lazer, estudo ou família.

O debate transbordou para a política e foi encabeçado pela deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), que apresentou uma PEC para reduzir a jornada. Antes dela, outros projetos de lei já tramitavam no Congresso e, em 2026, o governo Lula (PT) definiu a iniciativa como a principal bandeira.

A proposta enfrenta forte resistência de entidades empresariais, da indústria e de políticos da direita, que estimam que a redução da jornada de trabalho possa reduzir vagas, encarecer a produção e diminuir o PIB (Produto Interno Bruto). E há números para ambas as narrativas.

O impacto da 5×2 em números

Um levantamento do Ipea aponta que o custo da hora trabalhada deve aumentar, em média, 7,84% com o fim da escala 6×1, resultando num incremento inferior a 1% no total para um negócio operar. Esse possível aumento é considerado irrelevante pelo instituto.

Entre os dez maiores empregadores formais, o impacto financeiro da redução da jornada sobre o custo total da operação das empresas varia conforme o setor.

No comércio varejista, por exemplo, mesmo com aumento estimado de 9,26% no valor da hora trabalhada, o impacto no custo total do setor seria de apenas 1,04%. Isso ocorre porque a remuneração baixa faz a folha de pagamento abranger somente 11,24% das despesas totais do setor.

O cenário muda nos ramos mais dependentes de mão de obra. Em serviços para edifícios e paisagismo, por exemplo, o fim do 6×1 resultaria no acréscimo de 7,94% no custo da hora trabalhada e alta de quase 6% no custo total do setor.

O maior baque é reservado às microempresas — com até nove trabalhadores. Elas são a maioria no Brasil, mas não são as que mais empregam. Esse segmento, sim, pode ser onerado com contratação adicional ou pagamento de horas extras, alerta o Ipea.

Nas empresas com até 9 empregados, a jornada acima de 40 horas é praticamente a regra: 87,1% dos trabalhadores. Nos pequenos negócios com até 4 funcionários, esse número alcança 86,8%.

Na prática, conforme o Ipea, qualquer mudança de redução de jornada nos pequenos negócios atingiria diretamente a organização desses estabelecimentos. Afinal, com equipes enxutas, são menores as possibilidades de redistribuição de turnos e horas extras.

Mesmo diante de projeções alarmantes para pequenos negócios, um levantamento do Sebrae apontou que 47% dos donos de micro e pequenas empresas, além de microempreendedores individuais, avaliam que a medida não teria impacto sobre seus negócios.

Os números são da 9ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, feita entre novembro e dezembro de 2024. O estudo indica que apenas 1/3 (cerca de 32%) dos empreendedores acha que a medida será prejudicial para o próprio negócio.

“Entendemos que as mudanças na jornada devem ser feitas com diálogo e a partir de uma negociação com amplos setores da sociedade, garantindo segurança jurídica e sustentabilidade para empresas e trabalhadores”, afirma o presidente do Sebrae, Décio Lima.

Grandes empresários sobem o tom contra a escala 6×1

Por outro lado, no caso dos grandes empregadores, a CNI (Confederação Nacional da Indústria), diferentemente do Ipea, aponta que os setores de produção de larga escala teriam aumento de 25,1% (R$ 178,8 bilhões) no custo operacional com a redução para 36 horas semanais no modelo 4×3.

Em caso de redução para 40 horas, os custos da indústria cresceriam até 11,1%, equivalente a R$ 87,8 bilhões. O custo da mão de obra na região Sul teria o maior impacto, com 8,1%.

A Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina) estima que 41,4 mil vagas de trabalho no estado seriam perdidas nos próximos dois anos com a redução da jornada de trabalho para 40 horas sem perda salarial.

“A perda de competitividade da indústria de SC nos mercados internacionais e a redução no nível de atividade econômica vão impactar especialmente os setores intensivos em mão de obra e que são mais sensíveis a preços, tanto no exterior como no Brasil”, afirmou o presidente da Fiesc, Gilberto Seleme.

Já a ABIH-SC (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Santa Catarina) estima que o fim da escala de trabalho 6×1 pode elevar em até 20% o valor das diárias de hotéis no estado, impactando no turismo — uma das principais atividades econômicas catarinenses.

A CNT (Confederação Nacional do Transporte) afirma que o setor já enfrenta dificuldades significativas de reposição de mão de obra qualificada. A confederação entende que a solução é a negociação coletiva com sindicatos.

A experiência do empresário que já migrou para a escala 5×2

Longe dos números de pesquisas e de levantamentos, microempreendedores de Florianópolis se adiantaram à definição sobre o fim da escala 6×1 e já adotaram novas rotinas de trabalho com seus funcionários.

Júlia Macedo, proprietária da padaria Pão à Mão, no bairro Santa Mônica, reduziu a escala para 5×2 há pelo menos sete anos, quando o sábado ainda representava o dia de menor movimento para a padaria.

Com 24 funcionárias, a padaria funciona de segunda a sexta, das 8h30 às 18h30. O horário fez com que até mesmo a clientela precisasse se adaptar. O pão de fermentação natural começa a ser assado às 6h, quando a primeira leva da equipe chega. Ela conta que, em parte, a decisão foi tomada após observar o perfil de consumo da padaria.

“Por ser uma padaria, a gente tem que produzir tudo que pode vender, para não ter muita sobra. Então é todo dia tentando zerar o custo de produção; quando bate um faturamento, a partir dali é lucro. Sábado era o dia em que a gente mais tomava prejuízo”, explica.

A Amoriko Cafeteria e Brigadeiria funciona há 13 anos no tradicional bairro Ribeiro da Ilha e no Centro, em Florianópolis, de segunda a sábado. O empreendimento teve a escala de trabalho reduzida para 5×2 há apenas dois meses.

De acordo com o proprietário, João Paulo Bortolli, foi necessário um ano de planejamento antes da alteração. Não houve redução de funcionários nem de salários. No caso, a mudança resultou no melhor tratamento com o público e maior motivação dos funcionários.

“Percebemos que precisamos de pessoas bem cuidadas para cuidar dos outros. No 6×1, quando chegava no sábado, a pessoa já estava desgastada. É difícil lidar o tempo todo com o público, 8 horas por dia. Quando você tem essa quebra no meio da semana, ela passa num pulo. O atendimento ficou mais espontâneo. Até os clientes perceberam que as pessoas estavam mais felizes atrás do balcão“, conta.

Desde que passou a ter o fim de semana livre, Júlia não vislumbra retroceder na decisão, mesmo diante da possibilidade de aumentar o lucro.

“É muito insalubre você trabalhar na 6×1 na pegada que geralmente a galera da gastronomia trabalha. Hoje em dia, com o brunch que a gente oferece, eu sei que ia fazer sucesso se abríssemos aos sábados. Só que assim [na escala 5×2] é muito gostoso”, comentou.

“Para a gente abrir aos sábados, teria que ter muito mais gente na equipe. Então a folha ia aumentar muito e o lucro não ia compensar o impacto de sobrecarregar a folha nos outros dias”.

Escala 5×2 vira atrativo onde falta mão de obra
Na padaria Pão à Mão, diferentes braços carregam a farinha, amassam o pão, colocam-no no forno, vendem, torram o grão e passam o café. O trabalho manual, somado ao atendimento ao público, sintetiza a responsabilidade de quem trabalha com alimentação. Apenas esse ramo emprega 1,7 milhão de pessoas no Brasil.

“É muito insalubre você trabalhar na 6×1 na pegada que geralmente a empresa de gastronomia trabalha. A escala 5×2 faz com que a gente tenha uma taxa muito menor de faltas e de pessoas doentes. Para os níveis do setor, temos rotatividade bem baixa. É sempre muito rápido contratar aqui, porque o 5×2 também é um fator de escolha muito grande”, reforça Júlia, dona do empreendimento.

A preocupação da empresária em manter as funcionárias não é à toa. Bares e restaurantes trocam totalmente a equipe em um ano e quatro meses, em média. O dado é da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), que aponta que a taxa de rotatividade de pessoal — conhecida como turnover — chegou a 73,49% no Brasil.

Em sites de vagas de emprego, o 5×2 virou atrativo. A escala de trabalho fica logo ao lado do cargo oferecido e é listada como um dos benefícios da oportunidade. Foi a estratégia usada pelo proprietário da Amoriko, que explica que a mudança na jornada foi a solução encontrada para a dificuldade de contratar funcionários.

“Todo mundo operava na escala 6×1 e era a forma que mais funcionava até então para a gente. Mas, de dois anos para cá, sentimos muita dificuldade para conseguir colaboradores e uma demanda forte por parte deles, não só por aumento salarial, mas também por mais tempo fora do trabalho, qualidade de vida”.

Empreendimentos de outros setores já nascem sem o 6×1 e há anos servem de exemplo para a transição de jornada. É o caso da tecnologia, afirma Adriana Bombassaro.

A empresária é proprietária da FastBuilt, de Blumenau, cujo software é usado pela construção civil. Com 40 funcionários, a empresa funciona de segunda a sexta. Para ela, os benefícios da jornada sempre foram óbvios.

“Quando você tem alguém bem descansado, que pode conviver mais tempo com a família, essa pessoa vem mais motivada, engajada. […] O nosso propósito também é fazer a diferença na sociedade em que estamos envolvidos. São 40 famílias aqui que dependem do trabalho dessas pessoas”, reforça.

Jornada implica debater produtividade
O professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Fernando Moreira explica que o primeiro e mais importante passo para a mudança de jornada não tem custo. Em síntese, o especialista em Direito Empresarial, Governança e Compliance sustenta que a discussão sobre a produtividade dos funcionários antecede a redução da jornada.

Ou seja, empresa precisa trabalhar para reorganizar processos e melhorar a produtividade dos seus empregados. Dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostram que o Brasil tem a posição 91 entre 110 países em produtividade por horas trabalhadas.

“Reduzir quatro horas por semana — cair de 44 para 40 horas, por exemplo — não é uma grande diferença se houver impacto real na produtividade. Isso passa por readequação de escala por interesse da própria empresa, não apenas por interesse normativo. Se a empresa consegue oferecer mais descanso ao trabalhador, ela terá um trabalhador mais dedicado, que rende mais”, simplifica.

Reduzir a jornada de trabalho e manter o negócio aberto seis dias por semana exigiu organização e planejamento, além do aumento da produtividade na Amoriko Brigaderia. Não houve aumento do custo operacional, mas o maior aproveitamento do potencial de cada funcionário e fortalecimento do trabalho em equipe.

“A gente teve que rever vários processos, colocar pessoas trabalhando um pouco a mais para cobrir o colega enquanto ele folga. […] É um processo em que um ajuda o outro. Então a gente teve que rever alguns processos internos para fazer dar certo”, explica.

O dilema entre a folga e o salário

O dia de Vitória Reis, de 18 anos, começa às 4h da madrugada, quando inicia a jornada até o trabalho, que começa às 6h. Atendente de uma lanchonete no Ticen (Terminal de Integração do Centro), em Florianópolis, a jovem precisa escolher o que fazer com o único dia de folga na semana. Após seis dias corridos, no automático, ela admite que o tempo livre é usado para descanso e manutenção da casa.

“Eu acho pouco tempo, porque de manhã você quer dormir, já que acorda cedo a semana toda. Então levanta meio-dia, faz as coisas que no dia a dia não dá. Lavar roupa, fazer marmita e tal. É cansativo”, fala, dando de ombros.

Apesar de desejarem um dia a mais de folga na semana, tanto Vitória quanto Lauren — a trabalhadora do começo da reportagem — temem que uma jornada reduzida signifique salário menor, o que não é negociável para ambas.

“O 5×2 é um atrativo, mas às vezes, por conta do salário ser um pouco abaixo da média, acaba influenciando muito a trabalhar 6×1. Isso pesa muito na balança. No sábado, apesar de a gente trabalhar menos horas, é o dia em que a gente acaba ganhando um pouquinho a mais do que trabalhando em dia de semana; tem mais movimento”, afirma Lauren.

O trabalhador que não quer voltar para a 6×1

Formada em gastronomia, a gerente Bruna Oliveira pegou a transição da mudança para a escala 5×2 na padaria Pão à Mão. Foi um divisor de águas em sua rotina e relação com o trabalho na área, agora com tempo para fazer o que sempre quis.

“O principal para mim é ter tempo para a família, então consigo dedicar tempo para vê-la ao fim de semana. Além disso, tem como fazer as tarefas de casa, mas o principal para mim é continuar estudando gastronomia, área na qual sou formada”, comenta.

Padeira no mesmo estabelecimento, Leticia Betarello, de 33 anos, também é musicista. O samba preenche os dois dias da semana em que não trabalha. Voltar a trabalhar seis dias por semana não é mais opção para ela, que, além de profissional, é muitas outras coisas.

“O meu critério de escolha de trabalho é que seja 5×2. Se precisar, tem que valer muito a pena financeiramente, porque eu sei que vou sacrificar muito da minha vida. Então, na verdade, eu não estou disposta. Eu sei que vou perder muito tempo.”

A experiência resume um sentimento que cresce entre trabalhadores: mais tempo fora do trabalho passou a pesar tanto quanto o salário.

Foto (Padaria Pão à Mão): Abinoan Santiago/ND Mais