
Nos últimos anos, sobretudo após a reforma trabalhista de 2017, tem se intensificado na internet — especialmente nas redes sociais — um certo incômodo com o modelo tradicional de trabalho. É comum ver jovens afirmando que “não querem ser CLT” ou que “odeiam a CLT”. Mas será que essa crítica é de fato direcionada à Consolidação das Leis do Trabalho em si? Ou estamos, na verdade, diante de uma frustração muito mais profunda com a precarização crescente das relações trabalhistas no Brasil?
A reforma que abriu portas para a precarização
Aprovada durante o governo Michel Temer, a reforma trabalhista de 2017 prometia modernizar as relações de trabalho, reduzir o desemprego e dar mais liberdade tanto a empregadores quanto a empregados. No entanto, na prática, o que se viu foi a flexibilização — ou até mesmo a retirada — de direitos conquistados com décadas de luta.
A prevalência do negociado sobre o legislado, a ampliação da terceirização, o enfraquecimento das entidades sindicais e a facilitação da contratação intermitente são apenas alguns exemplos de como essa reforma contribuiu para fragilizar o vínculo entre trabalhador e proteção jurídica.
O resultado? Mesmo quem tem a carteira assinada passou a sentir o peso da insegurança, da instabilidade e da sobrecarga. A precarização do trabalho chegou, sim, à CLT.
O verdadeiro alvo da crítica
Quando jovens — especialmente da Geração Z — expressam aversão à CLT, o que realmente estão rejeitando não é a proteção legal em si, mas a realidade que têm enfrentado no mercado de trabalho: salários baixos que mal cobrem o básico; jornadas exaustivas em regimes 6×1 ou piores; transporte público lotado e condições de deslocamento desumanas; assédio moral frequente e falta de respeito no ambiente de trabalho; irregularidades no pagamento de direitos como horas extras e adicionais. Ou seja, estão criticando um sistema que promete proteção, mas que, na prática, tem se tornado cada vez mais ineficaz para garantir dignidade.
CLT: um patrimônio da classe trabalhadora
Criada em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, a CLT representou um marco civilizatório nas relações de trabalho no Brasil. Pela primeira vez, trabalhadores passaram a ter respaldo legal em questões como jornada de trabalho, férias remuneradas, salário mínimo, descanso semanal, entre outros direitos fundamentais.
A CLT não é perfeita, claro. Nenhuma legislação é. Mas sua importância histórica e sua função de garantir o mínimo de justiça nas relações entre capital e trabalho não podem ser ignoradas.
Por que jogar fora o bebê com a água do banho?
A expressão é antiga, mas faz todo sentido neste debate: por que jogar fora a CLT, se o que precisa ser combatido é justamente o que fizeram dela?
A precarização não nasce da CLT. Ao contrário: ela acontece quando a CLT é enfraquecida, ignorada ou flexibilizada em nome de uma suposta “modernização” que, na prática, só favorece quem já detém poder econômico.
Portanto, o debate que precisamos ter não é sobre “acabar com a CLT”, mas sobre resgatar sua função original — e ampliá-la para os novos tempos, protegendo trabalhadores diante das novas formas de exploração.
Conclusão: repensar, não descartar
Não é a CLT que está sendo demonizada, e sim a forma como o trabalho tem sido conduzido num cenário pós-reforma. Jovens, adultos e trabalhadores em geral não estão contra seus direitos — estão contra a perda deles.
Reivindicar um trabalho digno, seguro e justo é, na verdade, um ato profundamente alinhado com o espírito da CLT. A luta não é para abandoná-la, mas para fortalecê-la.
Clomar Porto – CTB-RS.